Futurospectiva #03 – Leis de Incentivo com a Simbiose Social

Leis de incentivo podem gerar oportunidades tanto para iniciativas culturais que não conseguiriam se desenvolver sem investimento, quanto para empresas que desejam apoiar projetos relacionados a causas que se relacionam com a imagem pública de uma marca. O problema é que pequenas ideias que buscam esse apoio através de editais muitas vezes não conseguem chegar ao conhecimento de quem toma as decisões sobre em qual projeto investir dentro das empresas. É nessa hora que falta uma ponte que facilite esse contato.

Nesse episódio do Futurospectiva, conversamos com Mathieu Anduze, Tadeu Silva e Octávio Augusto de Barros, parte da equipe por trás da Simbiose Social, uma startup que criou uma plataforma para reunir todos os projetos que buscam captação e para facilitar a busca para quem quer apoiar essas ideias. Na conversa também discutimos o acesso a dados públicos, os principais desafios e conquistas nos primeiros passos da startup, e quais os planos deles para o futuro.

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Página da Simbiose Social

Lei Rouanet

Lei de Acesso à Informação

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Futurospectiva #02 – Educação política com Diego Calegari, do Politize!

As eleições de 2018 no Brasil têm alguns desafios pela frente: um cenário de polarização política, a falta de confiança dos brasileiros nas instituições, e eleitores que são bombardeados por notícias e conteúdos distorcidos que acabam desinformando e polarizando ainda mais a discussão. Outro grande problema é a falta do conhecimento sobre como funciona o sistema político no país, pois a maioria dos eleitores não sabe o que faz um deputado, como ele é eleito, e não se lembra quem elegeu nas últimas eleições.

Alimentado pelo crescimento de manifestações políticas no Brasil desde 2013 e seu interesse no tema, o empreendedor Diego Calegari percebeu a importância de gerar informação política de qualidade, que tivesse como objetivo explicar como o sistema funciona sem direcionamento ideológico ou partidário. A partir disso ele criou o Politize, um portal que quer levar educação política para todo o Brasil para criar uma sociedade mais democrática.

Nesse episódio do Futurospectiva, Diego conta como foi sua experiência na criação do Politize! e fala sobre os planos do projeto para aumentar ainda mais o impacto na sociedade brasileira.

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As manifestações de 2013

Portal Politize!

Programa Embaixadores Politize!

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Futurospectiva #01 – GovTech: e-residência na Estônia com Gabriel Stürmer

A Estônia começou a levar inovação para o governo logo cedo, no início dos anos 1990, após sua independência e separação da União Soviética. Desde lá o país já colocou todas as suas escolas online, criou redes públicas de Wifi, implantou identidades digitais e desenvolveu um sistema robusto de troca de dados que reduziu a burocracia dos serviços públicos. Mas o último grande passo da Estônia na sua transformação digital foi a criação do programa de e-residência, que permite que empreendedores e cidadãos de outros países se tornem residentes digitais, dando direito a uma conta bancária e oferecendo a abertura de empresas remotamente.

Para entender melhor como funciona o processo de se tornar um residente digital, e quais são as implicações tanto para os empreendedores quanto para o país, conversamos com Gabriel Stürmer. Ele é o fundador de um estúdio de games chamado Cupcake Entertainment, e se tornou um e-residente da Estônia depois de passar por um processo de aceleração local.

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Estônia – Inovação como modelo de país

Papeladas e processos governamentais complexos estão vivendo seus últimos dias. Inovações tecnológicas que trazem mais segurança e melhor verificação de dados fazem com que seja possível realizar no ambiente digital tarefas que já foram sinônimos de filas de espera e burocracia sem fim. No Brasil, enquanto as iniciativas que mais chamam a atenção são os documentos digitais – como o título de eleitor e a nova carteira de motorista – são as mudanças de processos como a declaração do imposto de renda através de um aplicativo móvel, por exemplo, que facilitam a vida do cidadão. Essas inovações atraem interesse, mas ainda são iniciativas isoladas, e existe um país que está alguns passos à frente do resto do mundo na implantação de soluções tecnológicas no governo: a Estônia.

O pequeno país do leste europeu foi parte da União Soviética e conseguiu sua independência oficial só em 1992, e nesse momento eles encontraram um dilema: como eles poderiam se modernizar e se posicionar como um país influente na região e no mundo? Com uma revolução tecnológica, claro.

Um artigo da Wired! mostra como esse processo foi rápido: já em 1997 o país tinha 97% das suas escolas conectadas à internet, em 2002 a maioria das cidades já contava com uma rede WiFi aberta e gratuita, e em 2007 os cidadãos do país podiam votar online. Hoje tudo o que pode ser feito em um ambiente digital já acontece dessa forma, em um sistema completamente integrado que pode ser acessado de qualquer lugar a partir da autenticação das identidades únicas dos estonianos. A Estônia busca tanto a inovação que desde 2015 permite que pessoas de qualquer lugar do mundo se tornem cidadãos digitais ou, como chamam, e-residentes.

Identidade e Dados pessoais

Todos os processos digitais da Estônia acontecem a partir de uma autenticação feita usando identidades digitais. Ao contrário da tendência de ter essas informações reunidas em aplicativos de celular que só imitam a identidade real, como é o caso dos documentos brasileiros, o país continua trabalhando com um cartão físico que contém um chip, e ele é usado para autorizar processos diversos que vão desde pagar a passagem de ônibus e votar, até registrar o acesso de um médico aos dados de um dos seus pacientes.

Em seu artigo na revista New Yorker, o repórter Natham Heller conta sobre a política do once only, ou “uma só vez”: nenhum cidadão precisa preencher a mesma informação duas vezes. Ao fazer um pedido de empréstimo, por exemplo, a pessoa interessada tem suas informações transferidas de outras bases de dados sem que ela tenha que fazer uma busca extensa por documentos. O mesmo acontece para históricos médicos antes de uma consulta ou na inscrição para ingressar em uma universidade, por exemplo.

Isso tudo acontece através da autenticação da identidade digital. Utilizando um periférico conectado ao computador por um entrada USB, o chip do cartão de identidade é lido e o cidadão autoriza acessos e faz assinaturas digitais a partir de uma senha pré-definida. O governo da Estônia parte do princípio de que todos os dados pertencem ao cidadão, e são acessíveis com a própria autenticação. Profissionais que precisam acessar informações de usuários – como médicos ou sistemas de bancos – precisam pedir permissão e registrar o acesso com suas identidades. Olhar informações pessoais de outras pessoas sem a autorização dela é crime no país, a não ser dados de empresas e registros imobiliários, o que torna a fiscalização de autoridades e figuras públicas mais fácil.

Mas em um momento em que a proteção de dados pessoais é tema de debate em todos os cantos do mundo, e gerou até o receio da criação de redes divididas, como a Estônia garante a segurança dos dados dos seus mais de 1,5 milhão de habitantes?

X-Road

O sistema que é responsável por toda a troca de dados no sistema do governo da Estônia é chamado de X-Road. Ele também já foi adotado por outros países, como a Finlândia e a Namíbia, e desde 2017 ele já realiza a troca de dados diretamente entre os governos estoniano e finlandês.

Além da criptografia usada pelo sistema, uma das principais formas que o X-Road garante a segurança dos dados é que eles não são armazenados em um servidor central: como eles são criados por diversas agências do governo e entidades privadas, cada um desses atores é responsável pelo armazenamento dos dados e eles não podem ser duplicados.

Apesar de utilizar bases de dados descentralizadas ele não é baseado em tecnologia blockchain, principalmente porque os dados estão disponíveis apenas para a pessoa que tenta acessá-lo e a base de dados que mantém essa informação – como um hospital, uma escola ou universidade, por exemplo. Mas é esse mesmo sistema que consegue integrar os dados bancários com as informações de salários e investimentos de um cidadão na hora do pedido de um empréstimo ou na declaração de impostos, possibilitando a política do once only. Para que isso seja possível o X-Road não está limitado aos serviços do governo, e no país existe um grande incentivo para que organizações privadas também utilizem o sistema, permitindo que processos que envolvem dados pessoais possam ser cada vez mais rápidos.

Mas uma das coisas mais interessantes que esse sistema permite é o funcionamento de uma das políticas que mais colocou a Estônia em destaque nos últimos anos: a e-residência para estrangeiros.

E-residência

A Estônia já contava com um sistema robusto de serviços governamentais em ambiente digital, uma infra-estrutura que permitia o acesso de sistemas privados a alguns dados para permitir serviços estratégicos, e com o X-Road fazendo tudo isso funcionar e permitindo até a interação entre governos de países distintos. Assim eles perceberam que tinham uma grande oportunidade nas mãos: abrir espaço para cidadãos de outros países fazerem parte, ao menos digitalmente, dessa rede.

O programa de e-residência foi criado em 2014 com o objetivo de melhorar o mercado do país e atrair empreendedores internacionais. A ideia é simples: pessoas que querem criar suas empresas e ter mais acesso a mercados estratégicos na União Européia conseguem fazer isso digitalmente, com direito a um registro e conta bancária oficiais sem que seja necessário ter uma empresa fisicamente sediada na Estônia. Além de beneficiar empreendedores e startups, o programa também se tornou uma alternativa atraente para nômades digitais e freelancers.

A iniciativa tinha como ideal atrair empreendedores de países asiáticos ou do próprio leste europeu que queriam negociar com empresas européias, mas ganhou muita visibilidade após o referendo do Brexit na Inglaterra. O processo também não é complicado: pessoas de outros países fazem o registro do pedido da e-residência online e pagam uma taxa de inscrição. Depois de uma análise, elas são convidadas a retirar seu cartão digital – que dá acesso aos serviços digitais do governo – na embaixada mais próxima.

Em um país com apenas 1,5 milhão de habitantes, a taxa de registro de novos e-residentes já é maior do que a taxa de natalidade, o que destaca uma grande vantagem do programa para a Estônia: os e-residentes ajudam a financiar a sociedade estoniana. “É um negócio que é extremamente interessante a longo prazo, porque você tem uma quantidade de empresas que estão sendo criadas na Estônia e que estão pagando impostos na Estônia” disse Gabriel Stürmer, fundador da Cupcake Entertainment e e-residente. Segundo ele, a iniciativa é atraente para o país pois as empresas que funcionam nesse modelo “estão pagando impostos sem nem utilizar o sistema social deles”, então serviços como saúde, segurança e educação são amplamente beneficiados.

Ouça a entrevista completa

Um novo modelo de país

O formato dos serviços governamentais da Estônia alinhados ao programa de e-residência levantam a discussão sobre um novo modelo de país, onde uma nação compete diretamente pelas pessoas mais interessadas em empreender por oferecer vantagens competitivas mesmo para quem não pode estar lá geograficamente.

Isso leva cenários já conhecidos – como as universidades norte-americanas que atraem talentos científicos do mundo todo – a um novo patamar, e inspira a criação de novos modelos de gestão principalmente para países pequenos com recursos naturais limitados. “Você tem uma população reduzida, tem um país que não é muito grande e em questão de recursos não é muito rico, mas que está fazendo um esforço para se colocar no mercado e proporcionar maneiras de empresas e pessoas de outros países se interessarem” afirma Gabriel Stürmer.

“Talvez a Estônia tenha sido um dos primeiros países a se dar conta disso como estratégia de país, mas eu acho que isso é algo que outros países eventualmente vão se dar conta também”.

Gabriel Stürmer – e-residente da Estônia

No final de 2017 a Estônia aproximou sua realidade e as histórias de ficção científica: o país abriu sua primeira embaixada digital em Luxemburgo, onde há um backup dos dados mais críticos do seu sistema de governo, para tentar encontrar formas de se proteger contra ciberataques como o que atingiu o país 2007, originado na Rússia. Natham Heller levantou em seu artigo da New Yorker uma aplicação interessante para esse backup. Um assistente do governo contou a ele que ter cópias de dados em embaixadas digitais poderia permitir que no caso de uma invasão – o que é um medo recorrente dos estonianos devido ao seu histórico com a Rússia – membros do governo poderiam sair do país, e ao chegar em um local com uma conexão segura continuar a administrar a Estônia remotamente, usando um dos backups. Nesse caso os estonianos seriam, de fato, cidadãos digitais.

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Splinternets

Estar conectado já é algo considerado tão importante quanto ter acesso à energia elétrica. Mensagens, previsão do tempo, as últimas notícias do mundo e dos seus amigos, suas músicas e séries favoritas, o caminho mais rápido para o trabalho, seu atendimento bancário e sites que respondem suas dúvidas em milésimos de segundo. Esses e outros serviços que se tornaram essenciais dependem da internet e definem como interagimos com ela. O acesso à rede agora é uma ferramenta de expressão e aprendizado, e a ONU já passou a considerá-lo um direito humano básico. Mesmo assim, países ainda discordam sobre como a internet deve ser regulada e que tipo de conteúdo pode ou não estar disponível online.

Em julho de 2018 o Brasil aprovou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), seguindo muito do modelo que a União Europeia adotou para o GDPR (General Data Protection Regulation, ou Regulação Geral Sobre a Proteção de Dados) em maio deste ano. O GDPR ficou famoso por abrir o caminho para essas novas legislações no mundo, e também por fazer com que todas as empresas que oferecem serviços ao público europeu tivessem que adaptar suas operações para entrar em acordo com as novas normas. Os inúmeros e-mails que usuários receberam nas semanas que antecederam o dia 25 de maio anunciando as mudanças nos termos e serviços chamaram a atenção principalmente por dois motivos: mostraram o número de sites e aplicativos que tinham acesso de alguma forma aos seus dados, e fizeram internautas que moram fora da Europa se perguntarem o porquê do impacto de uma legislação tão distante de seus países.

Splinternets: redes divididas

Em busca de uma internet com mais privacidade e regulada, o GDPR da União Européia foi apenas mais um marco em um fenômeno que preocupa especialistas da internet há alguns anos: a criação de uma rede dividida, onde o acesso a determinados dados e conteúdos é diferente através de fronteiras nacionais. Esse fenômeno é chamado de splinternets, e levanta debates no mundo todo sobre seus efeitos na liberdade de expressão, acesso à informação, e facilidade de conduzir negócios em diferentes graus dependendo do país de onde a rede é acessada, levando desigualdades comuns do mundo real para a internet.

Como isso acontece?

A criação de redes divididas entre países pode acontecer de diversas formas. Algumas leis como o GDPR forçam empresas a oferecerem serviços que entrem em acordo com legislações nacionais, independente de onde estejam seus servidores e escritórios, caso contrário são multadas ou impedidas de atuar. Outras obrigam companhias a manter uma base de dados local, o que é chamado de data localization, como é o caso da Rússia, que exige que os dados pessoais de todos os seus usuários sejam mantidos dentro do seu território. Mas o exemplo mais conhecido no mundo é o bloqueio imposto pela China, conhecido como the great firewall, que limita o acesso e remove conteúdo que considera inadequado à população do país.

O argumento para a criação dessas leis também varia: enquanto alguns países pregam a regulação para a preservação dos dados pessoais e em nome de mais privacidade, outros partem do princípio da proteção de direitos autorais, da segurança nacional e do combate a crimes como a pedofilia.

Efeitos colaterais

As mesmas leis que são criadas para enfrentar um mal específico podem não levar em consideração implicações a longo prazo: bloquear páginas para proteger direitos autorais pode gerar mais desigualdade de acesso à informação? O monitoramento constante da rede por governos pode ser perigoso em regimes mais autoritários? Deletar informações para garantir o direito ao esquecimento pode também causar censura e atacar a liberdade de expressão? Leis que variam entre países podem dificultar a inovação e a criação de pequenos negócios?

Essas questões não são parte de uma realidade distópica: a França já travou uma batalha legal com o Google para expandir o “direito ao esquecimento” dos cidadãos europeus para o mundo todo, e a empresa também perdeu um outro caso no Reino Unido em 2018. Já o Brasil viu dois bloqueios dos serviços do Whatsapp a partir de pedidos de juízes. Além desses exemplos conhecidos ocorreram diversos outros pedidos oficiais de remoção de conteúdo online a partir de empresas e governos, e um estudo publicado pela Universidade de Harvard analisou mais de 50 deles.

Bloqueios locais em escala global

Grande parte dos pedidos de remoção do conteúdo desejavam que isso fosse feito em nível global, como foi o caso do embate entre a França e o Google. Em um painel sobre direitos e legislação na internet durante o SXSW 2018 o diretor executivo do ITS Rio, Fabro Steibel, cita os avanços do Marco Civil no Brasil, mas mostra receio de estarmos presenciando uma “corrida ao fundo do poço”, onde ao invés das democracias mais bem estabelecidas se tornarem exemplos incentivando a liberdade da rede para países mais autoritários, eles adotam práticas similares de bloqueio e censura.

Por outro lado, a aprovação de regulações como o GDPR partindo de um bloco de países influentes pode trazer resultados positivos. Luiz Fernando Martins Castro, doutor em direito e informática e membro do conselho do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), disse em entrevista ao Futurospectiva que a legislação aprovada na Europa pode ser uma luz que vai guiar como as regulações acontecem no resto do mundo, o que já foi visto no Brasil: “Foi só o GDPR ser aprovado que o Brasil fez andar um projeto parecido, e que reproduz princípios similares, que estava em discussão há anos” disse Martins Castro sobre a lei de proteção de dados pessoais aprovada neste mês de julho no Senado.

Como isso afeta a inovação?

O modelo de negócios de diversos setores da economia e a criação iniciativas inovadoras também pode ser afetado. Amy Webb, fundadora do Future Today Institute, vê o GDPR como uma possível ameaça ao jornalismo, e empreendedores temem que a dificuldade do trânsito e acesso a dados limite o ambiente de inovação global que a internet representa hoje. A longo prazo isso pode significar uma mudança no formato de monetização de serviços online, que hoje se sustentam principalmente através de publicidade e venda de dados.

Martins Castro pensa nas dificuldades pela falta de padronização: “O problema é legislar diferente. Se não existem padrões, isso dificulta negócios e aumenta a burocracia, podendo excluir países do mercado internacional. Existem dezenas de entidades e eventos globais que falam das mesmas coisas, querendo criar um ambiente harmônico. Se ele não pode ser idêntico, que ele seja pelo menos harmônico, onde possamos ter um nível de diálogo para o sistema funcionar”. O conselheiro acredita que os países com menor poder de influência que não aderirem aos padrões internacionais podem ficar de fora de dinâmicas interessantes de mercado, e que a longo prazo a tendência é que percebam que não conseguem atuar em ilhas nesse cenário e acabem aderindo a um padrão.

Existe solução?

Para criar padrões internacionais existe a defesa da criação de um órgão regulador similar à Organização Mundial de Comércio (OMC) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas o conselheiro do CGI.br também acredita que essa realidade está distante: “Os órgãos internacionais em geral estão enfraquecidos, e atualmente uma organização global para esse tipo de regulação traria o mesmo problema. Os países que não têm tanto poder de negociação debatem e aceitam as definições, enquanto outros como China, Estados Unidos e Rússia não vão se submeter se não for interessante para eles”.

Deve haver um comprometimento multi stakeholders, não só de governos, mas de empresas, sociedade civil e de ONGs para termos um mínimo denominador comum.”

Luiz Fernando Martins Castro, conselheiro do CGI.br

Martins Castro afirma que precisa existir um compromisso de diferentes stakeholders, envolvendo governos, empresas, sociedade civil e ONGs para que isso seja possível, mas acredita que esse fenômeno é benéfico, pois traz o tema ao debate para que a sociedade possa entender suas complexidades e encontrar soluções, mesmo que a longo prazo. “Não acredito na splinternet como o fim dessa história. A gente passa por esses episódios, passa por essas manifestações, mas tudo tem um efeito de descoberta e aprendizado”.

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Tendências da Tecnologia 2018

A inteligência artificial já faz parte do seu celular, carros autônomos e voadores já não são uma realidade tão distante, sistemas digitais estão mudando o conceito de dinheiro, a realidade virtual não está mais limitada a games, e você já pode ser um cidadão digital de um país legítimo.

Acompanhar todas as últimas novidades com um olhar panorâmico pode ser um desafio, mas também é uma boa prática para identificar oportunidades de criar soluções que antes eram inviáveis e se preparar para um futuro complexo. Pensando nisso o Future Today Institute criou o Emerging Tech Trends Report, um relatório anual que destaca, avalia e acompanha novas tendências, e mostra quem são os principais atores que estão criando e se aproveitando dessas inovações. Isso tudo para ajudar empresas, empreendedores e governos a entenderem o cenário atual para inovar sabendo onde pisam.

A edição de 2018 foi lançada no primeiro semestre durante o SWSW – festival onde as principais inovações tecnológicas e de negócios são apresentadas ao mundo – e traz tendências da tecnologia e seus impactos em áreas como inteligência artificial, robótica, marketing e publicidade, jornalismo, entretenimento, trabalho e aprendizado, governo, energia, biotecnologia, agricultura, e até mesmo exploração espacial.

Como funciona o relatório?

O relatório é extenso e traz mais de 200 destaques, mas foi produzido em um formato que facilita a leitura espaçada. Os próprios autores recomendam que ele não seja lido de uma só vez: a ideia do instituto é que ele seja uma referência para as diferentes áreas de atuação, e que seja consultado e absorvido aos poucos para que empreendedores e organizações possam identificar oportunidades reais de ação. Para facilitar o processo de consulta, ele foi dividido entre as principais áreas de estudo das tendências destacadas, e também possui um sumário especial com recomendações de leitura de acordo com campos de atuação.

Cada destaque informa o resumo da tendência, alguns exemplos práticos relacionados, os próximos passos esperados no tema, e as principais organizações que devem protagonizar o desenvolvimento do tópico. Além disso, o relatório também mostra há quantos anos a tendência já está presente na lista, e inclui um gráfico que recomenda o tipo de ação a ser tomada a partir de variáveis como “grau de certeza” e “impacto a longo prazo” estimados.

A seleção das tendências é feita do ponto de vista dos 10 campos que o instituto considera como fonte de todas as grandes mudanças no futuro:

  1. Distribuição de Riqueza
  2. Educação;
  3. Governo;
  4. Política;
  5. Saúde Pública;
  6. Demografia;
  7. Economia;
  8. Meio Ambiente;
  9. Jornalismo;
  10. Serviços e Canais de Mídia

O que está no relatório?

O relatório dividiu as tendências em 19 campos de estudo, além de uma previsão de sinais para 2019. Todos eles informações importantes para guiar e inspirar organizações e empreendedores nesses campos, mas destacamos algumas áreas e temas que são mais explorados.

Inteligência Artificial

As primeiras 27 tendências são dedicadas aos avanços relacionados à Inteligência Artificial e suas diversas aplicações no desenvolvimento de novas ideias. Alguns dos principais destaques do tema são inteligência artificial na nuvem e novos processadores para otimizá-la, o crescimento de rede de vendas de algoritmos, a evolução dos assistentes digitais, o crescimento da China como pioneira nesse desenvolvimento, e diversos processos inovadores de machine learning.

Governo e Tecnologia

O impacto de novas tecnologias em atividades e pautas dos governos também é destaque. Um dos principais temas abordados é a criação do que foi chamado de splinternets, a divisão da internet em redes distintas por conta de legislações locais que regulam conteúdo e acesso. Outra tendência importante é o confronto de novas tecnologias com leis antigas e a forma como os governos precisarão se adequar.

Tecnologias Financeiras e Criptomoedas

Um dos campos abordados que mais chama a atenção do público geral é a evolução de tecnologias como o Blockchain e suas principais aplicações financeiras e de segurança. Mas essa categoria também traz um destaque para nômades digitais e empreendedores internacionais: a possibilidade de se tornar um e-residente de uma nação. Países como a Estônia já adotam a prática, que permite aos aplicantes aprovados a criação de um registro de empresa e uma conta bancária no território da União Européia, o que facilita negócios na região.

Transportes

As tendências do setor de transporte trazem um ar de ficção científica: a automatização dos carros deve ser pauta ainda por algum tempo, mas o relatório também mostra a perspectiva de táxis voadores, estradas solares, a evolução dos drones, e navios e veículos submarinos autônomos. Além dos avanços tecnológicos também são discutidas legislações e patentes, além do que devemos esperar no campo dos carros autônomos já nos próximos anos, e a longo prazo.

Para se aprofundar nesses e em outros temas, baixe o relatório completo no site do Future Today Institute.

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Futurospectiva

Histórias de ficção científica imaginam o futuro levando em conta as relações entre pessoas e tecnologias superdesenvolvidas, normalmente se baseando nos dilemas e avanços da época em que elas são escritas. No mundo real a inovação acontece de um jeito parecido, e as próximas grandes mudanças que devem impactar nosso dia a dia já estão sendo pensadas, debatidas, criadas e financiadas.

As novidades tecnológicas podem abrir portas que permitem mudar dinâmicas sociais. Modelos de negócios e ideias com capacidade de gerar impacto já não ficam limitadas aos modelos de startup pensados apenas para o crescimento rápido. O desejo pela inovação e a busca por soluções criativas para problemas comuns hoje envolvem muito mais do que lucro, e também mudam como as pessoas interagem com governos e serviços.

É nesse cenário que o futuro mostra as caras: iniciativas de GovTech – onde o cliente vira o cidadão – começam a despontar, tecnologias que abrem novas possibilidades como o blockchain, que promete revolucionar a economia e a democracia, entram nos debates, e disputas legislativas entre empreendedores e governos para definir como a internet será a partir de agora tomam escala global. O futuro é o resultado do que a sociedade constrói hoje, e acompanhando as últimas ideias inovadoras e primeiros passos na criação de tecnologias já é possível enxergar seus primeiros sinais e descobrir oportunidades para inspirar e guiar essa construção.

O Futurospectiva é onde você encontra conteúdo que debate, analisa e contextualiza todas essas mudanças e iniciativas que estão construindo a sociedade do futuro. Nosso conteúdo mostra novas possibilidades para causar mudanças sociais através da inovação e tenta entender o contexto de um universo de possibilidades em expansão. Não importa se você é um empreendedor social, acompanha de perto as novas tendências e implicações tecnológicas ou quer descobrir mais sobre esse mundo, é aqui que vamos debater juntos.